terça-feira, 16 de abril de 2013

a evolução do léxico e o léxico renitente

Em consequência do post de há uns dias atrás, a função da palavra, surgiu-me mentalmente outra hipótese. Se, em tempos primitivos, o palavreado não chegava para o que se queria dizer, agora algumas palavras talvez estejam condenadas ao desuso. Não tenho uma ideia precisa de como evoluiu o conjunto de palavras que é a língua portuguesa, tal deve ser objecto de um ramo da história, mas a verdade é que os mais antigos usavam um conjunto de palavras mais elegantes no seu vocabulário diário. Palavras que hoje não se falam nem se escrevem, mas existem. Não é que actualmente não se acrescentem palavras às novas edições do dicionário universal da língua portuguesa, mas só me vêm à memória estrangeirismos e o calão, como quando acrescentaram o bué e o fixe. E estes livros, não passarão a ser também registos ou arquivos das palavras da nossa língua?

Abri aleatoriamente o dicionário, é escolar e por isso não serve o propósito deste exercício na perfeição, e encontrei poucas palavras que desconheço - réprobo, repelão,  repimpar, repontar, reposteiro - mas muitas que não ouço diariamente. Com uma certa vontade renitente, vou aprender e usar uma palavra nova a cada dia. Hoje foi renitente, adjectivo para teimoso e para algo que resiste.




segunda-feira, 15 de abril de 2013

a ironia na preferência pelos políticos comentadores

Não sou socratistaanti-socratista, cavaquista, nem passista, ou de qualquer outro neologismo associado à política. Este post destina-se essencialmente à partilha da ironia no actual resultado do seguinte inquérito do jornal público (ver aqui para mais detalhe)


domingo, 14 de abril de 2013

Memória eidética, número trinta e dois


Jorge Amado, José Saramago e Caetano Veloso, Bahia, 1996, por Zélia Gattai

sábado, 13 de abril de 2013

a função da palavra

Existem coisas que nunca se poderão explicar por palavras, pensou Beltriano, numa conversa mental que mantinha consigo próprio. Já estivemos mais longe disso, retorquiu ainda para si, a língua e as palavras foram inventadas pelo homem exactamente para designar e explicar, e não terá sido trabalho fácil, o de acordar um nome para uma determinada coisa.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

a fundação josé saramago


Há algum tempo que tencionava visitar a fundação josé saramago, na casa dos bicos. É uma bonita e completa exposição, sobretudo com um colectivo de funcionários simpáticos e atenciosos, que trabalham para um bom funcionamento da fundação e para o público visitante, coisa que não se vê vulgarmente neste tipo de museus. Posso até partilhar que, por ter chegado a uma hora do fecho, fui inquisitorialmente questionado pela frase conseguiu ver tudo? de certeza? e, como a resposta foi pouco convicta, fui convidado a regressar no dia seguinte, sem custos extra - algo que me pareceu acontecer com frequência, mesmo quando o preço é nada elevado. É, portanto, com ainda maior tristeza com que olho para o vandalismo a que a casa foi sujeita recentemente.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

pensamentos sobre a morte

há uma maturidade muito grande na morte, pensava maria da graça. uma sabedoria qualquer que nos acode. sentiu-se muito calma tão rente à felicidade e compreendeu que era só o que queria. nem lhe importava absolutamente que existisse deus e ele a julgasse também para uma vida além corpo. era só importante que pusesse um fim ao quotidiano cansativo que vivia e a morte estava diante de si como um passo apenas em determinada direcção. depois disto, pensa também, não estarei em lugar nenhum. e até o querer que exista o maldito, em alguma nuvem à minha espera, vai deixar de fazer sentido no momento em que eu própria desaparecer de todo e não puder pensar nisso nem no contrário.

valter hugo mãe, em o apocalipse dos trabalhadores

é para mim difícil pensar em deixar de existir. não acredito, ou tendo a não acreditar, em algo superior a nós próprios, isso é pouco importante para praticar a vida da forma como a pratico. no entanto é assustador assumir que, para o que quer que se suceda, seja irrelevante o pensamento de agora, porque tudo o que resta é nada. embora isso possa devolver igualmente uma certa tranquilidade.

terça-feira, 9 de abril de 2013

os vários finais de um livro

Li uma versão especial de a máquina de joseph walser, numa edição conjunta com um homem: klaus klump, onde ambos os livros foram aumentados e tiveram, assim, um final diferente. Não conhecia o fim original de nenhum dos dois e o primeiro estava em destaque na fnac. Li-o e achei-o mais provocante, ainda que a sua continuação fosse um pouco mais tranquilizante, embora enigmática. Todo este processo foi como saber o que acontecera depois de algo ter já terminado.

Talvez em consequência, dei por mim a encontrar um primeiro final para o livro que actualmente estou a ler, o apocalipse dos trabalhadores, na página 159. É um exercício interessante, o de encontrar um primeiro final, um momento no qual uma história podia cessar de se desenhar aos olhos do leitor. Não sei o que se passará nas páginas seguintes, mas encontrei ali um momento de tranquilidade com o qual ficaria satisfeito se fossem as últimas palavras que viria a ler sobre a quitéria e a maria da graça.



domingo, 7 de abril de 2013

Memória eidética, número trinta e um


Woody Allen vestido de Chaplin, Nova York, 1972, por Irving Penn

sexta-feira, 5 de abril de 2013

um poema que me ajude a aliviar o crescimento

Que vai ser quando crescer?
Vivem perguntando em redor. Que é ser?
É ter um corpo, um jeito, um nome?
Tenho os três. E sou?
Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito?
Ou a gente só principia a ser quando cresce?
É terrível, ser? Dói? É bom? É triste?
Ser; pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas?
Repito: Ser, Ser, Ser. Er. R.
Que vou ser quando crescer?
Sou obrigado a? Posso escolher?
Não dá para entender. Não vou ser.
Vou crescer assim mesmo.
Sem ser Esquecer.

Drummond de Andrade, in Verbo Ser

quarta-feira, 3 de abril de 2013