sábado, 25 de janeiro de 2014

o pensamento e o absinto

O senhor Henri pensou mais um pouco e depois disse: já percebo por que razão se começa a pensar.
... é por causa do cansaço.
... se todos os homens tivessem uma boa condição física não haveria um único filósofo.
O senhor Henri, antes de recomeçar a andar, disse ainda: felizmente no mundo, existe o absinto.
... o absinto é o melhor estímulo para a cabeça que existe. Por vezes não sei mesmo o que pensa melhor na minha cabeça: se a minha própria cabeça se o absinto.
... mas provavelmente é o absinto - disse o senhor Henri

Gonçalo M. Tavares, em O Senhor Henri

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

o truque do senhor valéry

O senhor Valéry vestia sempre de negro. Ele explicava:
- Ao verem-me de preto julgam-me de luto e, por compaixão, não me enviam mais sofrimento. (...) É como uma reacção química. (...)
- Se de um lado se encontra tudo escuro e do outro tudo claro, a tendência é para o lado escuro oferecer escuro ao lado claro, e o lado claro oferecer claridade ao lado escuro. Passado algum tempo encontra-se em equilíbrio.
- O meu truque - dizia o senhor Valéry, enquanto distraído pelos raciocínios vestia um fato branco - o meu truque - dizia ele - é andar sempre vestido de luto. Para atrair a alegria.

Gonçalo M. Tavares, em O Senhor Valéry e a lógica

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

mais do quotidiano dinamarquês de bicicleta

É assim que a embaixadora da Dinamarca na Áustria , Liselotte Plesner, chega às reuniões.


segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

o senhor kraus e o ensaio sobre a lucidez

«Um dia destes você vai ser chamado a votar, antes de o fazer leia este livro» diz um invólucro da capa do ensaio sobre a lucidez, de Saramago, na mais recente edição. Acabei de ler outro livro que se pode por nesta categoria. Complementam-se. O Senhor Kraus e a política, de Gonçalo M. Tavares. O primeiro é um ensaio sobre o lado mais perverso do cérebro dos políticos, o segundo uma sátira à completa falta de inteligência de outros.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Memória eidética, número oitenta e um


Guerra Junqueiro, algures no inicio do século vinte

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

acabando a semana com uma canção fatalista

Para uma canção que canta as hipóteses de morrer num choque frontal com um autocarro londrino ou com camião de dez toneladas, é bem boa.


The Smiths - There is a light that never goes out

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

o trabalho da morte

A dentadura dentro do copo de água mostra o trabalho da morte, como ele é contínuo e não algo que acontece de repente. Os dentes já morreram todos, diz o copo de água com um sorriso lá dentro.

Afonso Cruz, em Jesus Cristo bebia cerveja

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

os vários momentos em que morremos

Só se levanta depois de Matilde percorrer o corredor e de deixar de a ver. Não a quer ver mais. A vida das pessoas acaba assim e Matilde nem sequer tem consciência de que morreu uma das suas mortes. De cada vez que deixamos de ser percebidos, morremos. Quando somos enterrados deixamos de ser percebidos por toda a gente, mas quando os outros já não olham para nós, ficaram condenados para um número limitado de pessoas, a uma morte em tudo idêntica à outra. A nossa morte não acontece quando somos enterrados, acontece continuamente: os dentes caem, os joelhos solidificam, a pele engelha-se, os amigos partem. Tudo isso é a morte. O momento final é apenas isso, um momento.

Afonso Cruz, em Jesus Cristo bebia cerveja

domingo, 12 de janeiro de 2014

Memória eidética, número oitenta


Marina Ginestà no topo do Hotel Colón, Barcelona, Julho de 1936, por Juan Guzmán

sábado, 11 de janeiro de 2014

Cadernos da Bina: andar a primeira vez em Lisboa

Não sei se foi por estar muito pouco habituado a andar numa bicicleta de estrada, do facto de estar gente em todo o lado ou de ser na cidade. Não é nada fácil começar a andar na estrada, ou ganhar coragem para o fazer. Começar numa bicicleta completamente nova também não facilita, digo eu, todo ali esticado para a frente, para chegar aos travões, mas muito pouco ciclista. Há também que ter a sorte de ter amigos entendidos na matéria. Encontrei-me com um que me disse logo que a bina estava a carecer de umas afinações. Fomos até à veloculture e ela lá ficou a ser afinada. Melhores capítulos rolarão.