Espião soviético a rir-se para o seu executante, Finlândia, 1942
73 minutos de bondade
Há 18 horas
O senhor Henri estava no jardim em frente ao seu banco preferido, onde sentada uma mulher tocava violino.O senhor Henri interrompeu a violinista e disse: António Stradivarius foi o famoso construtor de violinos.... era o arquitecto dos violinos, bem se pode dizer.(...)... porém, o álcool apareceu muito antes do violino.... muito antes de existirem violinistas já existiam pessoas inspiradas artisticamente pelo álcool.Gonçalo M. Tavares, em O Senhor Henri
O senhor Henri pensou mais um pouco e depois disse: já percebo por que razão se começa a pensar.... é por causa do cansaço.... se todos os homens tivessem uma boa condição física não haveria um único filósofo.O senhor Henri, antes de recomeçar a andar, disse ainda: felizmente no mundo, existe o absinto.... o absinto é o melhor estímulo para a cabeça que existe. Por vezes não sei mesmo o que pensa melhor na minha cabeça: se a minha própria cabeça se o absinto.... mas provavelmente é o absinto - disse o senhor Henri
Gonçalo M. Tavares, em O Senhor Henri
O senhor Valéry vestia sempre de negro. Ele explicava:- Ao verem-me de preto julgam-me de luto e, por compaixão, não me enviam mais sofrimento. (...) É como uma reacção química. (...)- Se de um lado se encontra tudo escuro e do outro tudo claro, a tendência é para o lado escuro oferecer escuro ao lado claro, e o lado claro oferecer claridade ao lado escuro. Passado algum tempo encontra-se em equilíbrio.- O meu truque - dizia o senhor Valéry, enquanto distraído pelos raciocínios vestia um fato branco - o meu truque - dizia ele - é andar sempre vestido de luto. Para atrair a alegria.
Gonçalo M. Tavares, em O Senhor Valéry e a lógica
A dentadura dentro do copo de água mostra o trabalho da morte, como ele é contínuo e não algo que acontece de repente. Os dentes já morreram todos, diz o copo de água com um sorriso lá dentro.
Afonso Cruz, em Jesus Cristo bebia cerveja
Só se levanta depois de Matilde percorrer o corredor e de deixar de a ver. Não a quer ver mais. A vida das pessoas acaba assim e Matilde nem sequer tem consciência de que morreu uma das suas mortes. De cada vez que deixamos de ser percebidos, morremos. Quando somos enterrados deixamos de ser percebidos por toda a gente, mas quando os outros já não olham para nós, ficaram condenados para um número limitado de pessoas, a uma morte em tudo idêntica à outra. A nossa morte não acontece quando somos enterrados, acontece continuamente: os dentes caem, os joelhos solidificam, a pele engelha-se, os amigos partem. Tudo isso é a morte. O momento final é apenas isso, um momento.
Afonso Cruz, em Jesus Cristo bebia cerveja