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sábado, 29 de março de 2014

agora és


Agora pareces-me mais natural, disse ela pendurando-lhe folhas pelo cabelo desajeitado e afagando-lhe a espessa barba.

Imagem: You are now, de moonassi

quarta-feira, 5 de março de 2014

a receita

Deixar de ver as notícias e meditação.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

tudo se transforma

Antoine pensava nas leis da termodinâmica e na célebre frase de Lavoisier. Talvez venha a conseguir atingir a imortalidade, acrescentou em voz alta, rabiscando qualquer coisa na folha manchada de café que deixara de ser branca.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

sou paranóide mas não sou um andróide

E se, hipoteticamente, no mundo toda a população sofresse de um certo distúrbio, uma pequena paranóia, ou mesmo uma das grandes, não interessa para a questão. Se toda a gente padecesse da mesma paranóia, seriamos todos paranóicos ou todos normais? E se apenas uma pessoa no mundo não sofresse dessa condição mental? Seria essa pessoa considerada doente?

do Livro das Perspectivas

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

um bife no chiado

Não como carne, mas gosto desta canção e do chiado, e por vezes bem que gostava de pôr fogo a tudo, será pecado?

Os Quais - Um Bife no Chiado

sábado, 25 de janeiro de 2014

o álcool como inspiração

O senhor Henri estava no jardim em frente ao seu banco preferido, onde sentada uma mulher tocava violino.
O senhor Henri interrompeu a violinista e disse: António Stradivarius foi o famoso construtor de violinos.
... era o arquitecto dos violinos, bem se pode dizer.
(...)
... porém, o álcool apareceu muito antes do violino.
... muito antes de existirem violinistas já existiam pessoas inspiradas artisticamente pelo álcool.

Gonçalo M. Tavares, em O Senhor Henri

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

o truque do senhor valéry

O senhor Valéry vestia sempre de negro. Ele explicava:
- Ao verem-me de preto julgam-me de luto e, por compaixão, não me enviam mais sofrimento. (...) É como uma reacção química. (...)
- Se de um lado se encontra tudo escuro e do outro tudo claro, a tendência é para o lado escuro oferecer escuro ao lado claro, e o lado claro oferecer claridade ao lado escuro. Passado algum tempo encontra-se em equilíbrio.
- O meu truque - dizia o senhor Valéry, enquanto distraído pelos raciocínios vestia um fato branco - o meu truque - dizia ele - é andar sempre vestido de luto. Para atrair a alegria.

Gonçalo M. Tavares, em O Senhor Valéry e a lógica

domingo, 5 de janeiro de 2014

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

o gesto invisível

«Lenz considerava, aliás, estes movimentos não visíveis semelhantes aos gestos que uma pessoa pode fazer, estando em frente de outra, com a mão atrás das costas. Mão que é espantosamente visível para ele próprio, embora não com os olhos e, ao mesmo tempo, invisível para o homem que está mesmo à frente.» E quando a mão está visível, gesticula-se com a cabeça. A mente pode ser uma ferramenta tão violenta quanto a mão.

(Gonçalo M. Tavares, Aprender a rezar na Era da Técnica)

sábado, 21 de dezembro de 2013

espero que 2014 traga o b fachada de volta

Há um ano atrás, na mudança para o dia do suposto fim do mundo, estava no último concerto do B Fachada. Não estava muito medroso com o apocalipse, mas também não havia melhor forma de ir desta para melhor, se é que esta expressão faz algum sentido neste contexto. Foi uma b.leza.



quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

é isto

O bernardo cantava ao tempo para cantar, eu escrevo ao tempo para ler: sobra-me tempo para ler. Mas também não poupo a voz.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

silêncio

«Fica o silêncio depois da música e depois do sermão, que importa que se louve o sermão e aplauda a música, talvez só o silêncio exista verdadeiramente.» Ainda que sejam silêncios completamente diferentes, mas, até vou mais longe, talvez seja o silêncio o que de mais próximo existe de uma verdade absoluta.

(Saramago, em Memorial do Convento)

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

cantar o que me impede de dormir

Bom, não sou o gajo mais feliz do mundo mas estou dentro da média. A nossa música tem tanto de humor, de luz e de boa disposição como de escuridão. Mas gosto de aprofundar o lado mais doloroso, é verdade. Porque canto o que não me deixa dormir, mesmo que seja apenas porque quero descobrir de que se trata.

Matt Berninger, em entrevista ao i. 
Nem sou muito dos national, mas gostei de ler isto. Talvez seja uma boa terapia. Tudo o que me distraia é.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

um pensamento que me assombrou há umas semanas

Know what's weird? Day by day nothing seems to change. But pretty soon everything's different.

Bill Watterson

E depois também há a outra, que já nem sei onde ouvi, que é num espaço de cinco anos sermos diferentes ao ponto de olharmos para trás e nos acharmos completamente parvos. Ao ponto do embaraço.
Daqui a cinco anos vou ler o quão parvo era. Já me aconteceu. E vou envergonhar-me deste post.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

a ira dos pássaros

«vigiam-nos lá de cima, esperam pela oportunidade, nós desprevenidos», talvez se fale de caca, ou de guerra.


foto por Sergio Larrain, Londres, 1959

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

simplificações

«Essas coisas do yin e yang, preto no branco, dualidades, são todas simplificações. Não existem na vida como a conhecemos.» 

A Man Feeding Swans in the Snow, por Marcin Ryczek

terça-feira, 22 de outubro de 2013

rigidez

Amanhã serei mais completo, mais rígido comigo. Ou então depois.

foto por Andrew Lyman

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

escrevi torto por linhas rectas

«Existe uma obsessão pela linha recta. O homem não descansou enquanto não transformou a viagem num percurso em linha recta.» Foi esta a epígrafe da minha tese de mestrado. Tentei, quase discretamente, que a frase remetesse ao tema da tese, mas nem era uma prioridade. A epígrafe era sobretudo para mim e acabou por surgir esta, do Gonçalo M. Tavares, que me assentava na perfeição e em meias palavras falava de mobilidade. Por vezes as palavras mais acertadas são aquelas que não estão escritas, como um silêncio dos escritores.

O homem tem, de facto, uma obsessão pela linha recta e no mundo estas não existem por natureza. Moralmente o recto simboliza o bom e o torto aquele que se afasta. Senta-te direito, dizia subliminalmente o meu professor de filosofia. E o curioso desta história é que, na discussão da tese, comentaram a epígrafe sem qualquer suspeita de que era uma provocação (tamanha é a obsessão). Uma provocação à rapidez de hoje em dia, à forma recta que desejam em tudo. Nunca pretendi que o meu caminho universitário fosse assim, uma entrada para uma saída, e é tudo o que vejo à volta.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

aquela ideia romântica de falhar para depois renascer

Já disse que não sou do tipo religioso. A morte assusta-me. O óbvio seria acreditar numa certa transcendência que, religiões à parte, é capaz de devolver uma certa tranquilidade, como um seguro. Mas o que me assusta é sermos desligados num clique e ser como se nunca tivéssemos existido. Como se nada tivesse importado, reduzirmo-nos a simples matéria. Parece-me demasiado injusto. Ainda nem descortinei nada. Acabei de sair da faculdade, mal tive a oportunidade de falhar. Sempre tive aquela ideia romântica de falhar para depois renascer.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

a islândia, a crença e portugal

Ontem ouvi Valter Hugo Mãe falar sobre islândia, de como grande parte dos islandeses acreditam na existência de pequenos homens que habitam as rochas, a quem fazem oferendas, de como aqueles que não acreditam não fazem juízos e de como existem estradas que se desviam propositadamente dessas rochas, que fazem parte da numeração das casas. Se depois da casa um estiver uma rocha, a próxima casa será a casa três. A rocha é a casa dois. Acho isto de uma beleza extrema, faz-me acreditar. Cá é exactamente o contrário. Nem nas pessoas há crença, nem na natureza há crença e nem património há crença. Não há qualquer problema em passar-lhes por cima. Que tristeza extrema.